terça-feira, 9 de março de 2010

RABISCOS


     Certa vez, quando eu era garotinha e ouvia as conversas dos adultos, contaram a história de um jovem que, por morder a língua, morreu. Explicaram que o garoto tinha muito veneno em sua lábia. A partir daí, nunca mais abri a boca, para não ter que fechá-la. Tinha medo de que eu própria tivesse aquele veneno que matara o pobre menino. Bebia e comia através de canudos. Falar? De jeito nenhum. Somente escrevia o estritamente necessário para aqueles que considerava importantes. Não me lembro quando foi a última vez que escrevi.
     Consegui um emprego alguns anos atrás. Realizava a vigilância de um dos cofres mais importantes de um dos bancos menos prestigiados da cidade. Confiavam em mim. Afinal, eu não falava, não fazia gestos e a única vez que me viram escrever foi para me candidatar à vaga. Perdi o emprego duas semanas depois de ser contratada porque não consegui avisar que o cofre estava sendo roubado.
     Mas é a vida. Ela não é fácil pra ninguém, não é?
     Acreditam que outro dia ainda uma conhecida (nem tão conhecida assim) veio até mim no ponto de ônibus e disse mais ou menos isso:
     - É bom escutar, mas melhor ainda é realmente ouvir. Você escutou demais o que os outros diziam e transformou sua vida de acordo com o que o medo lhe ordenava. Ainda há tempo. Por que não muda?
     Então olhei-a com ousadia, tanto quanto ela me olhava. E disse (não disse, exatamente, mas pensei com tanta força, que é praticamente o mesmo que dizer):
     - Bobagem! Pelo menos não morri envenenada!


Uma história medíocre para uma situação medíocre.  Ainda há tempo.
Chega de inércia.

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